A escala 6×1 e o absenteísmo da elite brasileira.
por Euclides Roberto Novaes de Sousa
A superexploração do trabalho e o patronato que não quer investir (ou trabalhar)
Há uma luta silenciosa, por um lado — a dos trabalhadores, especialmente os do comércio — e a elite econômica, como um todo, de outro lado, em torno da escala 6×1. Um lado resiste no trabalho, trabalhando. O outro impõe o regime de trabalho, mas sem trabalhar tanto assim. Ou nada, digamos.
Recentemente essa luta foi fortemente reavivada a partir de uma manifestação do presidente do Banco Central, quando afirmou, acertadamente, que a produtividade brasileira era baixa; errou quando relacionou isso à inflação. Qual a relação? Sinceramente não consigo enxergar uma relação direta. Mas a questão não é essa. O presidente deu a deixa para um jornal, muito ladino, inventasse um ranking mundial dos trabalhadores que mais trabalham. Invenção porque emprega dados de qualidades diferentes e tenta demonstrar ou indicar algo que exigiria uma investigação minimamente aprofundada — e não apenas assinalar horas de trabalho. Ou seja: um quadro falso. E uma coisa falsa é uma coisa inventada, embora invenções possam ser verdadeiras.
Mas esta, a do jornal, ladino, repito, não é apenas falsa invenção. É matreira, ideológica, para ficar aqui apenas nos termos mais suaves. Confundiu-se produtividade com horas trabalhadas. Embora uma tenha relação com a outra, ela não é direta. Há uma mediação nisso. Produtividade refere-se ao produto por trabalhador ou por hora medida. O número de horas trabalhadas vai dar como resultado a multiplicação dessa produtividade. O limite de horas trabalhadas num país, conferido em sua legislação, nada diz ainda sobre a produtividade global do trabalho neste mesmo país. Para dada economia em seu conjunto é o PIB real pelo número de pessoas trabalhando. O Jornal Ladino não refere nem a uma coisa nem a outra.
Mas porque a produtividade é importante? Desde a grande obra de Adam Smith, A Riqueza das Nações, esta tem sido uma questão importantíssima. E este autor abre o primeiro capítulo já afirmando que foi pela divisão do trabalho que “…o crescente desenvolvimento do trabalho, e o aumento do engenho, destreza e discernimento ao qual está ligado…” (SMITH, 1979) foi possibilitado. A macroeconomia moderna entende que as fontes do crescimento de longo prazo dependem de uma produtividade crescente. E este aumento depende de capital físico (máquinas, construções etc.) capital humano (educação) e inovação — diga-se progresso tecnológico (KRUGMAN & WELLS, 2015, pp. 569 e segs.). Pergunta-se: em qual destes itens o nosso homem de negócios está investindo? Se a resposta envolve um silêncio ou dúvida, então vai ficando claro porque determinadas responsabilidades vão sendo empurradas para o lado do trabalhador, com juízos que são muito mais de ordem moral que técnica. E de uma moralidade baixa, sem qualquer base real — aliás, todo juízo moral de uma coletividade envolve um preconceito e uma ideologia.
O preconceito é explícito: brasileiro trabalha pouco porque é vagabundo. Uma afirmação mentirosa e uma avaliação autorreflexa de nossa elite, que emite juízos olhando-se no espelho. Ideologicamente há uma explicação — que nos remete, mais uma vez, ao nosso passado colonial, que não desgruda de nossas classes abastadas. Trata-se da longa duração da exploração do trabalho em modo extensivo: quer-se o trabalhador todo o tempo disponível e para fazer tudo o que for necessário. Portanto, as considerações de Adam Smith sobre o trabalho não vingaram por aqui. E continuam assim, no geral. Sempre há exceções, mas para como diz o clichê, para confirmar a regra. Então se disfarça essa peça com máscaras morais, escondendo a verdadeira indolência de nossas classes “superiores” — coloquem aí os mais ricos, os herdeiros, os investidores, banqueiros de dinheiro fácil… Ah, claro, sempre temos exceções, embora a maioria delas também não resista a um exame mais detido. Nem exploramos aqui o aspecto de como ainda se extrai valor desse modelo de trabalho e para onde vai seu excedente. Isso é outro capítulo, que pode descrito por gente mais competente no assunto. Mas o leitor informado já pode fazer uma ideia.
Portanto, quem trabalha mais, quem trabalha menos? Você, que é trabalhador, quando seu patrão viajar para o Guarujá enquanto você mesmo fica cuidando dos negócios dele, pense bem nisso. E diga para todos.
Então cabe, finalmente, a seguinte pergunta: o que estão fazendo os empresários e comerciantes do Brasil para aumentar a produtividade? Aparentemente nada, já que ela é ainda muito baixa, de acordo com o nosso digníssimo Galípolo, atual presidente do Banco Central. Se o Jornal Ladino fala pelos nossos empresários e comerciantes, afirmando que o brasileiro “trabalha menos”, o que é uma mentira, deduzimos que os patrões querem é tergiversar — fugindo ao debate, escamoteando-se na guerra, bandeando-se para os seu domínios recreativos e sociais. E o resto que se mantenha pelo chicote, pois desde há muito que este é o método de aumentar produtividade neste país. O aumento da produtividade é algo muito mais complexo do que isso; e muito mais do que eu mesmo escrevi nestas breves linhas, pois uma coisa é trabalhar 12 horas numa fábrica japonesa de automóveis; outra é trabalhar 12 horas num táxi ou veículo Uber. Quando se fala em produtividade por aqui a má fé das esferas proprietárias transpira; avaliações morais de todo tipo saltam no ar enquanto as classes proprietárias abastadas borboleteiam, vão a coquetéis, recebem prêmios. Deixemos aos economistas, bem-intencionados ou nem tanto, explicar esse negócio da produtividade – se bem que são convocados a se pronunciar só quando se torna conveniente ao mainstream. O que os sociólogos têm a dizer aos trabalhadores é: tome consciência da sua condição; defenda seus interesses, não o do patrão. E talvez o tema da produtividade comece realmente a ser levado a sério.
Referências:
Krugman, Paul & Wells, Robin. Introdução à Economia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. Tradução Helga Hoffman. pp. 569-584.
Smith, Adam. Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. Tradução de Jardim Maria do Carmo Cary e Eduardo Lúcio Nogueira. São Paulo: Abril Cultural, 1979 – coleção Os Pensadores (que inclui também Davi Ricardo, Princípios de Economia Política e tributação, na tradução de Rolf Kuntz). p. 7
Fernanda De Negri, Luiz Ricardo Cavalcante (organizadores) – Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes – Brasília : ABDI : IPEA, 2014.
Euclides Roberto Novaes de Sousa, 64. – É servidor público estadual, graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia. Licenciado em Sociologia. Especialização em Textos em Língua Portuguesa e amante de Literatura.
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Rui Ribeiro
7 de abril de 2026 1:08 pmEu acho que a redução da jornada de trabalho e o fim da 6×1 não fará elevar os custos de produção. Eu acho que a manutenção da escala 6×1 e da jornada de trabalho intactas e/ou a não elevação dos salários proporcionais ao aumento da produtividade é que fazem os custos de produção deixarem de ser reduzidos. Confere?
Seu raciocínio toca em um ponto central da economia: a relação entre
salário, jornada e produtividade. No entanto, a conclusão de que a redução da jornada não elevará custos é controversa e depende do ponto de vista e do setor analisado.
Aqui está uma análise baseada em dados e teorias atuais sobre o tema:
1. A Redução da Jornada e o Custo de Produção
Para muitos economistas e entidades patronais, a redução da jornada sem redução de salário aumenta o custo da hora trabalhada.
Aumento Matemático: Se um funcionário trabalha 44 horas e passa a trabalhar 36 ganhando o mesmo, o custo de cada hora sobe cerca de 22,2%.
Necessidade de Novas Contratações: Setores que operam 24/7 (como hospitais ou fábricas com turnos) precisariam contratar mais pessoas para cobrir as horas vagas, o que gera novos custos de treinamento e encargos.
Estimativas: A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o impacto nacional poderia chegar a R$ 267 bilhões ao ano.
2. O Contra-argumento: Ganhos de Produtividade
O seu argumento de que o custo não subiria apoia-se na ideia de que trabalhadores menos exaustos produzem mais e melhor em menos tempo.
Eficiência: Estudos sugerem que jornadas longas estão ligadas a estresse, burnout e queda de produtividade. Reduzir a carga pode diminuir o absenteísmo (faltas) e erros, compensando parte do custo.
Baixo Impacto Operacional: Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que, para grandes setores, o impacto operacional real poderia ser inferior a 1%, similar a reajustes históricos do salário mínimo.
3. Produtividade vs. Salário (O “Gap”)
Você mencionou que a manutenção da jornada e salários estagnados reduzem os custos. Isso é tecnicamente verdade sob a ótica da margem de lucro imediata:
Disparidade de Remuneração: Quando a tecnologia ou processos aumentam a produtividade, mas o salário e a jornada continuam iguais, a empresa captura todo o excedente de valor produzido.
Redução de Custo Unitário: Produzir mais no mesmo tempo (ou pelo mesmo custo salarial) diminui o custo médio por produto, aumentando a competitividade da empresa no curto prazo.
Resumo Comparativo
Perspectiva Efeito no Custo de Produção Justificativa
Visão Empresarial/CNI Aumenta Elevação do valor da hora paga e necessidade de novas contratações.
Visão Laboral/Ipea Neutro/Positivo Compensado por maior eficiência, menos rotatividade e estímulo ao consumo.
Sua tese Reduz (via manutenção) O custo cai quando o ganho de produtividade não é repassado ao trabalhador.
Você gostaria de ver como esses impactos variam especificamente para pequenas empresas ou para o setor de serviços?
Mas manter a escala 6×1/ jornada de trabalho e os salários inalterados com a elevação constante da produtividade reduz custos. Então acontecendo o contrário, não há aumento de custos. Deixa apenas de haver redução de custos. Isso não é lógico?
Faz sentido o que você diz do ponto de vista da
contabilidade de custos. Se a produtividade sobe (produz-se mais no mesmo tempo) e o salário continua o mesmo, o custo unitário de cada produto ou serviço cai.
Para que sua lógica de que “não há aumento de custos, apenas o fim da redução” seja 100% precisa, precisaríamos olhar para dois cenários:
1. O “Custo de Oportunidade” vs. Custo Real
Para uma empresa que já conta com a queda progressiva de custos (ganho de produtividade retido), interromper essa queda é visto como uma “perda” de lucro futuro. Mas, na prática:
Contabilmente: Se você gasta R
1.000 para produzir os mesmos 100 itens, o custo estancou. Não houve aumento real em relação ao dia anterior.
O “Pulo do Gato”: O aumento de custo só ocorre se a produtividade não compensar a redução das horas. Se a produção cair de 100 para 80 itens pelo mesmo salário, o custo por unidade sobe.
2. A Produtividade como Moeda de Troca
O seu argumento sugere que a redução da jornada seria apenas o trabalhador “reclamando” para si o ganho de produtividade que ele já gerou e que estava ficando com o patrão.
Exemplo: Se a tecnologia tornou o trabalho 20% mais eficiente nos últimos anos, reduzir a jornada em 20% agora apenas equilibraria a balança. O custo de produção voltaria ao patamar original de antes do salto tecnológico, em vez de continuar caindo.
Por que ainda dizem que o custo sobe?
A resistência ocorre porque o mercado trabalha com a expectativa de deflação de custos (fazer sempre mais com menos). Quando você reduz a jornada mantendo o salário:
Interrompe-se a tendência de queda do custo unitário.
Cria-se um custo imediato de transição (reorganizar turnos, contratar novos funcionários para cobrir o 7º dia que antes era coberto pela escala 6×1).
Em resumo: Você está correto ao dizer que a manutenção da jornada com produtividade alta é uma forma de redução contínua de custos para o capital. Interromper isso é, tecnicamente, abrir mão de uma margem de lucro crescente, o que muitos setores interpretam e contabilizam como um “novo custo”.
Você acredita que esse ganho de produtividade acumulado nos últimos anos já seria suficiente para cobrir o fim da escala 6×1 sem que os preços ao consumidor subissem?
Você concluiu que “o custo cai quando o ganho de produtividade não é repassado ao trabalhador”. Entretanto, o custo não sobe quando o custo de produtividade beneficia o trabalhador. O que você acha?
Do ponto de vista da
lógica distributiva, você está coberto de razão. O que você descreve é a disputa pela “fatia do bolo” gerada pelo progresso técnico.
Para analisar se o custo “sobe” ou “não sobe”, precisamos separar o custo nominal (o dinheiro que sai do caixa) do custo unitário (quanto custa cada produto):
1. Se o ganho de produtividade vai para o trabalhador (Redução de Jornada)
Imagine que uma tecnologia permite produzir 100 peças em 6 horas, tarefa que antes levava 8 horas.
Cenário A: O trabalhador passa a trabalhar apenas 6 horas ganhando o mesmo salário.
Resultado: O custo de produção de cada peça continua exatamente o mesmo de antes da tecnologia existir. O custo não subiu em relação ao patamar histórico, mas a empresa “perdeu” a chance de lucrar mais.
2. Se o ganho de produtividade fica com a empresa (Manutenção da Jornada)
Cenário B: O trabalhador continua trabalhando 8 horas com a nova tecnologia e produz 133 peças pelo mesmo salário.
Resultado: O custo por peça despenca. A empresa agora tem uma margem de lucro muito maior ou pode baixar preços para esmagar a concorrência.
O conflito de percepção
A afirmação de que “o custo sobe” quando a jornada cai costuma ser usada porque o mercado financeiro e as empresas não comparam o custo de hoje com o de “ontem”, mas sim com o potencial de lucro máximo (o Cenário B).
Para o gestor, se ele poderia estar produzindo por R
1,30 (Cenário A), ele registra esses R$ 0,30 como um aumento de custo de oportunidade.
Para você, não é aumento, é apenas a devolução do tempo ao trabalhador em troca da eficiência que ele mesmo ajudou a implementar.
Em resumo
Sua lógica é impecável se considerarmos que a produtividade é um excedente. Se esse excedente for usado para reduzir a jornada, o custo de produção apenas retorna ao equilíbrio anterior, em vez de continuar caindo. O “custo” só subiria de fato se a redução da jornada fosse maior que o ganho de produtividade acumulado.
Você acha que a tecnologia atual (IA, automação) já gerou excedente suficiente para bancar o fim da escala 6×1 sem que as empresas precisem repassar custos para os preços?
Rui Ribeiro
7 de abril de 2026 1:14 pmNum diálogo com a IA do Google, ela concluiu que “o custo de produção cai quando o ganho de produtividade não é repassado ao trabalhador”. Daí eu afirmei que o custo não sobe quando o aumento de produtividade beneficia o trabalhador. e perguntei o que a IA acha. Eis a reposta:
“Do ponto de vista da lógica distributiva, você está coberto de razão. O que você descreve é a disputa pela “fatia do bolo” gerada pelo progresso técnico.
Para analisar se o custo “sobe” ou “não sobe”, precisamos separar o custo nominal (o dinheiro que sai do caixa) do custo unitário (quanto custa cada produto):
1. Se o ganho de produtividade vai para o trabalhador (Redução de Jornada) – Imagine que uma tecnologia permite produzir 100 peças em 6 horas, tarefa que antes levava 8 horas.
Cenário A: O trabalhador passa a trabalhar apenas 6 horas ganhando o mesmo salário. – Resultado: O custo de produção de cada peça continua exatamente o mesmo de antes da tecnologia existir. O custo não subiu em relação ao patamar histórico, mas a empresa “perdeu” a chance de lucrar mais.
2. Se o ganho de produtividade fica com a empresa (Manutenção da Jornada)
Cenário B: O trabalhador continua trabalhando 8 horas com a nova tecnologia e produz 133 peças pelo mesmo salário.
Resultado: O custo por peça despenca. A empresa agora tem uma margem de lucro muito maior ou pode baixar preços para esmagar a concorrência.
O conflito de percepção
A afirmação de que “o custo sobe” quando a jornada cai costuma ser usada porque o mercado financeiro e as empresas não comparam o custo de hoje com o de “ontem”, mas sim com o potencial de lucro máximo (o Cenário B).
Para o gestor, se ele poderia estar produzindo por R$ 1,30 (Cenário A), ele registra esses R$ 0,30 como um aumento de custo de oportunidade.
Para você, não é aumento, é apenas a devolução do tempo ao trabalhador em troca da eficiência que ele mesmo ajudou a implementar.
Em resumo
Sua lógica é impecável se considerarmos que a produtividade é um excedente. Se esse excedente for usado para reduzir a jornada, o custo de produção apenas retorna ao equilíbrio anterior, em vez de continuar caindo. O “custo” só subiria de fato se a redução da jornada fosse maior que o ganho de produtividade acumulado.
Você acha que a tecnologia atual (IA, automação) já gerou excedente suficiente para bancar o fim da escala 6×1 sem que as empresas precisem repassar custos para os preços?”